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Epidemias

Broad Street, 1854: o mapa que mudou o jeito de ver epidemias

Em 1854, a cólera matava centenas em poucas ruas de Londres, e quase todos culpavam o ar. Um médico marcou as mortes num mapa e mudou a investigação de epidemias.

Mapa de John Snow do surto de cólera de 1854 em Soho, Londres, com cada morte marcada em torno da bomba de água da Broad Street

Prancha · vídeo do episódio

Vídeo reservado para o episódio sobre a cólera, o mapa de Broad Street e o nascimento do olhar epidemiológico.

Este espaço fica reservado para o vídeo do episódio. Enquanto o vídeo não entra, a imagem histórica funciona como capa provisória do post.

No fim de um verão de 1854, algumas ruas do bairro de Soho, no centro de Londres, viraram um dos lugares mais mortais da cidade. Em poucos dias, mais de quinhentas pessoas morreram de cólera num raio de poucos quarteirões. A doença chegava sem aviso e matava rápido. Alguém passava bem de manhã e, à noite, já estava encolhido numa cama, seco por dentro.

A cólera era uma das maiores ameaças das cidades do século XIX. Quem adoecia perdia uma quantidade enorme de líquido pelo corpo numa velocidade assustadora, e era isso que matava. A pessoa morria de desidratação. Em horas, a pele ficava acinzentada, as mãos enrugadas, os olhos fundos. Muita gente morria no mesmo dia em que sentia o primeiro sintoma. E ninguém sabia ao certo de onde a doença vinha.

A explicação que dominava a medicina da época apontava para o ar.

A teoria do ar ruim

A ideia se chamava teoria dos miasmas. Acreditava-se que doenças como a cólera se espalhavam por um mau cheiro que subia da sujeira, do esgoto, da água parada. E isso fazia sentido para quem vivia ali. Londres fedia. O rio Tâmisa era quase um esgoto a céu aberto, e os bairros pobres viviam cercados de dejetos. Onde havia mau cheiro, havia doença. Para quase todo mundo, isso bastava como prova. O ar ruim era o culpado.

Era uma teoria confortável, porque encaixava com o que os olhos e o nariz percebiam. O problema é que ela estava errada, e seguir por ela mantinha a cólera fora de alcance. Enquanto a culpa fosse do ar, não havia o que fazer além de tentar limpar os cheiros da cidade.

O médico que desconfiava da água

Um médico de Londres não engolia essa explicação. O nome dele era John Snow. Hoje ele é lembrado como um dos fundadores da epidemiologia, mas na época era conhecido por outra coisa. Snow era um dos maiores especialistas em anestesia do país. Tinha aperfeiçoado o uso do clorofórmio e chegou a aplicá-lo na própria rainha Vitória, num parto. Era um homem metódico, obcecado por medir as coisas.

Havia anos ele desconfiava de que a cólera não vinha do ar. O raciocínio dele era simples e incômodo. Se a doença estivesse no ar, deveria atacar primeiro os pulmões. Mas a cólera começava no intestino, com diarreia. Para Snow, isso indicava que a pessoa engolia alguma coisa, algo invisível, que passava de um doente para outro pela água contaminada por dejetos. Ele já tinha defendido essa ideia numa epidemia anterior, em 1848, sem convencer quase ninguém. Faltava uma prova que ninguém pudesse ignorar. O surto de Soho seria essa prova.

O mapa que desenhou a epidemia

Quando a cólera explodiu em volta da Broad Street, Snow foi para a rua. De porta em porta, anotou onde cada pessoa tinha morrido. Depois fez uma coisa que parece óbvia hoje, mas que era nova. Pegou uma planta do bairro e marcou cada morte com um traço, bem na casa onde tinha acontecido.

À medida que os traços se acumulavam, um desenho apareceu sozinho no papel. As mortes não estavam espalhadas por igual. Elas se amontoavam em volta de um ponto. Uma bomba de água pública, no meio da Broad Street.

Naquela época, as casas não tinham água encanada. As pessoas buscavam água em bombas públicas espalhadas pelas ruas. E a bomba da Broad Street tinha fama de dar a melhor água da região, limpa e fresca. Famílias de outras ruas faziam questão de buscar água justamente ali. Era em volta dessa bomba elogiada que as pessoas estavam morrendo.

As exceções que fecharam o caso

Snow sabia que coincidência não é prova. Então foi atrás das exceções, e foram elas que fecharam o caso.

Bem no meio da zona da morte havia uma cervejaria, e nenhum dos seus trabalhadores adoeceu. O motivo: eles bebiam a cerveja que produziam e tinham um poço próprio. Não tocavam na bomba. Perto dali, um asilo com centenas de internos quase não teve mortes, e também tinha o próprio poço.

Mas o caso mais revelador foi o de uma viúva. Ela tinha morado em Soho e gostava tanto da água da Broad Street que mandava buscar garrafas dela mesmo depois de se mudar para Hampstead, um bairro distante e arejado. Ela bebeu daquela água. E morreu de cólera, longe de qualquer mau cheiro de Soho. Se a doença estivesse no ar do bairro, aquela mulher não teria como adoecer. A água, e não o ar, viajava com a cólera.

A manivela da bomba

Com o mapa e as exceções na mão, Snow procurou as autoridades da paróquia e pediu uma coisa só. Tirar a manivela da bomba da Broad Street, para que ninguém mais pudesse usá-la. Os responsáveis não estavam convencidos, mas, diante do desespero, aceitaram. A manivela foi removida.

Aqui entra um detalhe que a versão romântica da história costuma esconder. Quando a bomba foi desativada, o surto já estava em queda. Muita gente tinha fugido do bairro e o pior já havia passado. Tirar a manivela provavelmente não foi o que acabou com a epidemia. O que ficou para a história não foi o gesto. Foi o raciocínio que levou até ele.

O cético que tentou provar o contrário

E esse raciocínio passou pelo teste mais duro possível: alguém tentando provar que ele estava errado. Henry Whitehead era um jovem reverendo da região, querido pelos moradores. Ele não acreditava na teoria de Snow. Tinha bebido água da própria bomba durante o surto e continuava vivo.

Para refutar o médico, Whitehead refez todo o levantamento, com calma, agora que a epidemia tinha passado. Bateu de porta em porta e reuniu centenas de mortes num raio de poucas centenas de metros. Quanto mais dados juntava, mais aparecia o oposto do que ele esperava. As mortes seguiam a bomba. No fim, o homem que queria derrubar Snow virou seu maior aliado.

Whitehead ainda foi além. Quis entender como a água da bomba tinha sido contaminada logo no início. Descobriu que, numa casa bem ao lado da bomba, um bebê tinha adoecido de cólera pouco antes de o surto explodir. A água suja usada para lavar as fraldas da criança era jogada numa fossa. E essa fossa, velha e rachada, ficava a poucos passos do poço que abastecia a bomba. O caminho da doença estava completo. De um bebê doente, para a fossa, para o poço, para a água que o bairro inteiro bebia.

Não foi só um homem, e não foi só uma rua

É tentador contar isso como a história de um gênio solitário. Mas Snow não estava sozinho nesse esforço de enxergar a doença no mapa, e o caso de Broad Street não foi nem a prova mais forte que ele reuniu.

Ao mesmo tempo, Snow investigava um experimento natural muito maior, no sul de Londres. Duas empresas vendiam água para as mesmas ruas, às vezes para casas vizinhas. Uma delas, a Lambeth, tinha mudado sua captação para um trecho do rio acima da cidade, longe do esgoto. A outra, a Southwark e Vauxhall, continuava tirando água do Tâmisa bem no meio da sujeira de Londres. Snow comparou, casa por casa, de onde vinha a água e quem morria de cólera. Entre os clientes da empresa que pegava água suja, a mortalidade era muitas vezes maior. Era quase um teste de laboratório feito na cidade inteira, sem que ninguém o tivesse planejado.

E havia uma geração inteira tentando transformar epidemias em imagem. Relatórios oficiais sobre as epidemias de 1848 e 1849 já traziam diagramas que mediam a intensidade da cólera por região. Na Irlanda, o médico Dominic Corrigan desenhou seu próprio mapa da doença. Por toda parte, médicos e sanitaristas comparavam ruas, altitudes e fontes de água. A medicina estava aprendendo, em vários lugares ao mesmo tempo, a fazer uma pergunta nova. Não só qual é o tratamento, mas por que a doença aparece aqui.

O micróbio que ninguém via

Snow tinha razão sobre a água. Mas havia um limite no que ele podia enxergar. Ele chegou a examinar a água da bomba no microscópio e não encontrou nada que parecesse o agente da doença. Defendeu até o fim que existia um veneno vivo, que se multiplicava no corpo, sem nunca conseguir mostrá-lo. Morreu em 1858, aos quarenta e cinco anos, sem ver a sua ideia ser aceita.

No mesmo ano do surto de Soho, do outro lado da Europa, um anatomista italiano chamado Filippo Pacini examinava ao microscópio os intestinos de mortos por cólera em Florença. E ali ele viu. Milhões de bactérias minúsculas, em forma de vírgula. Pacini descreveu o microrganismo e afirmou que ele era a causa da doença. Foi ignorado, assim como Snow. Só quase trinta anos depois, em 1883, Robert Koch reencontraria a mesma bactéria e levaria o crédito pela descoberta. Até hoje, o nome científico do micróbio da cólera guarda o de Pacini.

Do doente para o território

O que sobra de tudo isso não é a manivela da bomba, nem a disputa sobre quem viu o micróbio primeiro. É a mudança de pergunta.

Quando Snow desenhou as mortes num mapa, a medicina deixou de olhar só para o doente e passou a olhar também para o lugar. Para a água, a rua, a fossa, a cidade. A saúde deixava de ser uma questão apenas do corpo e virava também uma questão de território. É essa pergunta, por que a doença aparece aqui e não ali, que ainda hoje move a investigação de qualquer epidemia. Os mapas mudaram, viraram telas. A pergunta continua a mesma.

Dúvidas comuns

Perguntas frequentes

Quem foi John Snow?

John Snow foi um médico britânico que viveu entre 1813 e 1858 e é considerado um dos fundadores da epidemiologia moderna. Em sua época, porém, era mais conhecido como anestesista, um dos maiores especialistas do país no uso do clorofórmio, que chegou a aplicar na própria rainha Vitória durante um parto. Foi a investigação da cólera em Londres que o tornou um nome decisivo na história da saúde pública.

O que foi a epidemia de cólera de Broad Street, em 1854?

Foi um surto violento de cólera no bairro de Soho, no centro de Londres, no fim do verão de 1854. Em poucos dias, mais de quinhentas pessoas morreram num raio de poucas ruas, o que torna o episódio um dos surtos urbanos mais concentrados já registrados. Foi nesse surto que John Snow reuniu a prova de que a doença se espalhava pela água.

Como John Snow descobriu que a cólera vinha da água?

Snow foi de porta em porta e marcou cada morte por cólera em uma planta do bairro. As marcações se concentraram em torno de uma bomba de água pública da Broad Street. Para descartar coincidência, ele investigou as exceções, como uma cervejaria e um asilo com poços próprios, que quase não tiveram mortes. O padrão apontava para a água daquela bomba, não para o ar.

O que era a teoria dos miasmas?

Era a ideia, dominante na medicina do século XIX, de que doenças como a cólera se espalhavam pelo ar, através de um mau cheiro que subia da sujeira, do esgoto e da água parada. Como as cidades industriais eram imundas e fétidas, a associação entre mau cheiro e doença parecia óbvia. Foi essa explicação que John Snow contestou ao defender que a cólera vinha da água contaminada.

Remover a manivela da bomba de Broad Street acabou com a epidemia?

Provavelmente não. Quando Snow convenceu as autoridades da paróquia a retirar a manivela da bomba, o surto já estava em queda, em parte porque muitos moradores tinham fugido do bairro. O gesto virou símbolo, mas o que ficou para a história foi o raciocínio que levou até ele, e não o efeito imediato da medida.

Quem foi Henry Whitehead e qual foi o seu papel?

Henry Whitehead foi um jovem reverendo de Soho que, no início, não acreditava na teoria de Snow e até havia bebido da própria bomba durante o surto. Para tentar refutá-lo, refez todo o levantamento das mortes e acabou confirmando a ligação com a bomba. Foi também ele quem ajudou a encontrar o caso que provavelmente contaminou o poço, fechando a cadeia da doença.

Quem descobriu o microrganismo causador da cólera?

O anatomista italiano Filippo Pacini observou ao microscópio a bactéria da cólera, em forma de vírgula, em autópsias feitas em Florença em 1854, o mesmo ano do surto de Soho, mas seu trabalho foi ignorado. O crédito acabou ficando com Robert Koch, que reencontrou o microrganismo em 1883. Em reconhecimento tardio, o nome científico do gênero, Vibrio, ainda preserva a autoria de Pacini de 1854.

John Snow foi o único a mapear epidemias no século XIX?

Não. Embora seu mapa de Broad Street seja o mais famoso, havia toda uma geração tentando transformar epidemias em imagem. Relatórios oficiais sobre as epidemias de 1848 e 1849 já traziam diagramas de intensidade da cólera, e na Irlanda o médico Dominic Corrigan desenhou seu próprio mapa da doença. Snow foi o caso mais influente de um movimento mais amplo.

Por que John Snow é considerado o pai da epidemiologia?

Porque ele tratou uma epidemia como um problema de padrões no espaço, e não apenas como uma soma de casos individuais. Ao cruzar mortes, ruas e fontes de água, mostrou que era possível identificar a causa de uma doença pela distribuição dela no território, antes mesmo de enxergar o agente no microscópio. Esse método, hoje chamado de epidemiologia, nasceu desse tipo de raciocínio.

Fontes deste arquivo

Dr. Renato Susin

Conheça o trabalho clínico por trás do Arquivo Médico.

O Arquivo Médico é um projeto editorial. Para conhecer o trabalho do Dr. Renato na medicina, acesse o site institucional.


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